A História da Dolly: A Guerra que Levou a Marca à Falência

“Dolly, Dolly Guaraná, o sabor brasileiro!”. Quem não se lembra desse jingle e do seu mascote, o Dolinho? Uma das marcas mais icônicas e nostálgicas do Brasil, a Dolly ousou desafiar gigantes como a Coca-Cola com uma proposta de preço acessível. No entanto, hoje, a marca que já foi onipresente mal é encontrada nos supermercados. Sua trajetória é marcada por uma guerra comercial, acusações de crimes bilionários, uma prisão televisionada e uma batalha judicial que a deixou à beira da falência. Afinal, a Dolly foi vítima de um complô ou de seus próprios erros?

6. Conteúdo do Post (Com Palavras de Destaque)

O Sonho de um Refrigerante Acessível

A história da Dolly começa em 1987 com Laerte Codonho, um jovem paulistano de 26 anos com um objetivo ousado: criar um refrigerante popular que pudesse competir com as multinacionais. O mercado era dominado por Coca-Cola, Pepsi e gigantes nacionais como a Antártica.

O diferencial de Laerte foi apostar em um refrigerante dietético, algo inédito no Brasil na época. Mesmo com uma lei que proibia a produção, ele entrou na justiça e venceu, recebendo autorização para fabricar o Dolly Guaraná. Com pouco dinheiro e alguns empréstimos, abriu uma pequena fábrica em Diadema (SP). Após mais uma batalha judicial para conseguir vender o produto, o sucesso foi imediato. O preço baixo conquistou o público de São Paulo, e a marca expandiu para novos sabores.

A Guerra Contra a Gigante

Para crescer nacionalmente, a Dolly apostou em propagandas de TV. Com orçamento apertado, Laerte criou pessoalmente o mascote Dolinho, inspirado nos Teletubbies. As propagandas simples e o jingle chiclete grudaram na cabeça dos brasileiros.

No entanto, segundo Laerte, o crescimento incomodou. Ele alegava ser alvo de uma campanha difamatória orquestrada pela Coca-Cola para tirá-lo do mercado. A tensão explodiu em 2003, quando Laerte divulgou uma gravação de uma conversa com um executivo da Coca-Cola, na qual ele afirmava que a multinacional não mediria esforços para eliminar a concorrência.

A Dolly acusou a rival de pressionar fornecedores, praticar concorrência desleal e até de usar um extrato derivado da folha de coca em sua fórmula. A briga virou um símbolo da luta de Davi contra Golias, mas as acusações mais graves nunca foram comprovadas. Mesmo assim, em 2016, a Dolly atingiu seu auge, com 2.000 funcionários e 10% do mercado nacional de refrigerantes.

A Reviravolta: De Acusador a Acusado

Em 2018, a batalha mudou de lado. A Dolly foi alvo de uma operação da Polícia Federal, acusada de um esquema de sonegação fiscal que ultrapassava 4 bilhões de reais. Laerte Codonho foi investigado por lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e formação de quadrilha.

O empresário alegou ser vítima de seu próprio contador, que teria falsificado guias fiscais e desviado mais de R$ 100 milhões. Mesmo assim, em maio de 2018, Laerte foi preso. A imagem dele sendo levado pela polícia segurando um cartaz com os dizeres “Preso pela Coca-Cola” rodou o país.

As consequências foram devastadoras. Com as contas bloqueadas, a Dolly entrou com pedido de recuperação judicial, fechou uma de suas fábricas e demitiu cerca de 1.000 funcionários.

O Início do Fim?

Nos anos seguintes, a Dolly conseguiu algumas vitórias na justiça. A suposta dívida bilionária com a União foi revertida em um crédito fiscal, e a acusação de sonegação foi anulada. Laerte chegou a processar promotores por abuso de autoridade e venceu.

Contudo, o estrago na imagem e na operação da empresa já estava feito. O golpe mais duro veio em 2025, quando Laerte Codonho foi condenado a 11 anos de prisão em primeira instância por corrupção ativa, falsificação de documentos e crime ambiental, em um caso envolvendo desmatamento ilegal.

Hoje, a Dolly permanece em recuperação judicial, uma sombra do que já foi. Sua presença nos mercados é mínima, e seu futuro é incerto. A saga da marca que um dia sonhou em ser a gigante brasileira se tornou um conto sobre como uma guerra comercial e uma série de crises podem levar um império a ruir.